quinta-feira, 21 de maio de 2009

Entrevisto do Presidente da Associação ao Jornal Correio Popular


Antes de responder às questões que me foram colocadas pelo Correio Popular, gostaria de dizer duas coisas:

Em primeiro lugar pedir desculpa ao meu amigo José Manuel Lourenço, director do Correio Popular, pelo facto de há quatro meses estar à espera deste meu artigo e só agora estar pronto para publicação. O trabalho tem sido muito e embora tenha começado, logo que me foi dirigido o convite, a elaborar um rascunho, procurei ao longo deste tempo aperfeiçoá-lo e torná-lo digno de ser lido pelos leitores do Correio Popular. Reconheço que o que a seguir escrevo tem muitas limitações mas creio que o que é importante é transmitir ideias, que serão sem dúvida passíveis de ser rebatidas.

Em segundo lugar quero deixar claro que as opiniões que expresso, são as minhas próprias opiniões, não são seguramente, embora haja uma ampla coincidência de pontos de vista, o pensamento dos restantes membros da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da Escola Básica do 2º e 3º ciclo D. Luis de Ataíde de Peniche.

Questões

01- Quais são os vossos planos para este ano?
Os nossos planos para este ano forma aprovados na reunião de direcção que teve lugar em 12 de Novembro de 2008, em traços gerais o que propomos fazer é o seguinte:

1. CONHECER A ESCOLA – Os seus problemas e as suas necessidades.
Como?
Através de REUNIÕES com:
- Órgãos directivos
- Directores de turma
- Representantes dos funcionários
Através de INQUÉRITOS:
- Aos pais
- Aos alunos
- E a toda a comunidade educativa

2. PARTICIPAR ACTIVAMENTE NA RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS DA ESCOLA
Como?
Através da nossa disponibilidade para colaborar com quem nos contacte, órgãos directivos, directores de turma, professores, pais, alunos, funcionários, para a procura de caminhos que permitam que a escola seja um espaço de aprendizagem, de harmonia e de solidariedade.

3. ENVOLVER A COMUNIDADE E EM ESPECIAL OS PAIS E ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO:
Como?
Através da comunicação rápida e eficaz:
- Site na internet
- Blogue
- Artigos nos jornais locais
Através da participação:
- Acções de sensibilização no sentido de chamar os pais à escola e alertá-los para a importância da sua participação na vida escolar dos seus filhos
- Elaboração e envolvimento em projectos de animação do espaço escolar e de angariação de fundos, para compra de material para a escola.

4. A NIVEL ESTATUTÁRIO
- Criar um grupo de trabalho para analisar os actuais estatutos da associação e propor as necessárias adaptações à nova realidade decorrente não só da situação de inactividade da associação nos últimos anos, mas também da integração da escola num agrupamento vertical.

5. A NIVEL DO ASSOCIATIVISMO
- Colaborar activamente com a outra associação de pais existente no agrupamento, a da Escola nº 1, para que a informação flua atempadamente entre estas duas estruturas.
- Colaborar com a CONFAP

02- Um dos principais problemas que enfrentam é a baixa adesão dos pais. O que esperam fazer para tentar reverter essa situação?


Em nossa opinião, a baixa participação dos pais não é um problema exclusivo das associações de pais, é um problema cultural e no caso português agravado por um regime que durante 48 anos tomou as decisões em nome de todos. Por outro lado, hoje em dia assiste-se cada vez mais a um afastamento preocupante entre os representantes e representados e isso tem a ver com a defesa de interesses individuais em detrimento de interesses colectivos. Felizmente o paradigma da democracia intermitente, isto é a votação para os orgãos que nos representam de quatro em quatro anos, tem uma tendência acelerada para se alterar, alteração essa que está a ser feita através da imprensa, das sondagens, dos blogues, dos grupos de discussão e de opinião da internet, e dentro de muito pouco tempo os orgãos que detem o poder estarão muito mais atentos á sua actuação diária e não só quando pretendem agradar aos eleitores em períodos pré eleitorais. Isto é um assunto que nos levaria muito longe e a paciência dos leitores tem limites…

Há todavia uma realidade que não posso, nem devo, ignorar e que é minha obrigação denunciar.
Muitos pais encaram a escola como o armazém de crianças. Aquele sitio onde se “deixam os putos para não chatearem!”. O local onde deixam os filhos para irem trabalhar (e às vezes divertir-se). Muitos desses pais encaram a escola como um espaço que tem obrigação de os substituir na tarefa da educação. “Os professores que os eduquem, são para isso que são pagas!” já ouvi dizer. Ora a tarefa da educação, entendida como um conjunto de regras e comportamentos adequados à vida em sociedade é, em primeiro lugar, dever dos pais. É em casa que se começam por definir regras, não dizer palavrões, não ser rude com colegas, professores, empregados e com os demais seres humanos, respeitar os outros, comportar-se civilizadamente nos espaços que se tem que partilhar com as outras pessoas, acima de tudo, fazer interiorizar aquela máxima “a tua liberdade termina onde começa a liberdade dos outros”. É em casa que se aprende isso não é na escola!.
A educação começa em casa, a escola ensina as crianças mas não é sua função substituir-se à família.

Neste aspecto sou peremptório porque penso que os nossos impostos, que com muito sacrifício pagamos, (e porque somos um pais pobre, não temos petróleo nem outros recursos naturais que possamos explorar), devem ser geridos de forma exemplar. Se um aluno é mal comportado, se o encarregado de educação é chamado à escola e, ou não comparece ou comparecendo não faz rigorosamente nada para que o comportamento do seu educando se altere, então com a sua atitude está a desbaratar recursos que são de todos nós. E porquê? Porque o aluno, está a “roubar” o tempo que deveria ser utilizado para o ensino dos seus colegas. Porque pelo facto de se comportar mal, e obrigar o professor e os colegas a interromper a aula e a desviar a atenção, se está a apropriar de um recurso que é o tempo da aula para seu próprio beneficio.
O que fazer então ao encarregado de educação? Se não consegue que o seu educando cumpra regras (que por acaso até estão expressas no regulamento interno da escola), e se nada parece resultar, em ultimo caso penalizá-lo com aumento dos seus impostos para que assim possa compensar o prejuízo que causa à escola. É pena que nesta sociedade, todos se achem com direito a tudo, mas quando se fala de obrigações, é frequente assobiar-se para o lado.

Mais uma vez a cultura do facilitismo prevalece, porquê portar-me bem? vou ter um computador portátil mesmo assim, porquê estudar? no final do ano vou passar! (eles sabem que o processo burocrático que os professores tem que fazer é tanto para reterem os alunos, que alguns preferem fechar os olhos e atirar o problema para o ano/colega seguinte)

Em relação concretamente à nossa associação, pensamos que temos que demonstrar aos pais e encarregados de educação porque é que a associação de pais é importante, temos que agir de forma a que os pais sintam efectivamente que estamos a trabalhar em prol dos seus filhos e isso consegue-se fazendo propostas, intervindo activamente em todos os domínios.
O decreto lei 75/2008 de 22 de Abril, que estabeleceu o novo regime de autonomia das escolas, pôs nas mãos dos representantes dos pais uma série de instrumentos de forma a permitirem uma intervenção mais activa na escola. É nossa opinião que não devemos frustrar as expectativas dos governantes que puseram à nossa disposição estes instrumentos.

03- Como avaliam a relação pais/educadores com a escola, em especial com professores e integrantes dos órgãos de gestão da escola?

Como em todos os organismos quer públicos quer privados, quando se reconhece aos utentes/clientes o direito legitimo de intervirem, de forma a que os serviços possam ter uma melhor qualidade e possam corresponder aquilo que deles se espera, há sempre uma certa desconfiança. Aconteceu há anos atrás com a introdução da certificação de qualidade nas empresas. Se sempre se tinham produzido e vendido os produtos de determinada maneira, “porque carga d’água” é que agora se iria introduzir um mecanismo de controle de qualidade? Poucos anos depois a filosofia da certificação estava consolidada e já ninguém questionava o sistema. De uma maneira geral o ser humano é avesso à mudança, não resisto a transcrever uma historia que corre na internet:

Um grupo de psicólogos dispôs-se a fazer uma experiência com macacos.
Colocaram cinco macacos dentro de uma jaula. No meio da jaula, uma mesa. Acima da mesa, pendendo do teto, um cacho de bananas. Os macacos gostam de bananas. Viram a mesa. Perceberam que subindo alcançariam as bananas. Um dos macacos subiu para cima da mesa para apanhar uma banana. Mas os psicólogos estavam preparados para essa eventualidade: com uma mangueira deram-lhe um banho de água fria. O macaco que estava sobre a mesa, ensopado, desistiu provisoriamente do seu projecto.
Passados alguns minutos, voltou o desejo de comer bananas. Outro macaco resolveu comer bananas. Mas, ao subir outro banho de água fria. Depois de o banho se repetir quatro vezes, os macacos concluíram que havia uma relação causal entre subir para cima da mesa e o banho de água fria. Como o medo da água fria era maior que o desejo de comer bananas, resolveram que o macaco que tentasse subir levaria uma sova.
Quando um macaco subia para cima da mesa, antes do banho de água fria, os outros aplicavam-lhe a sova merecida. Então os psicólogos retiraram da jaula um macaco e colocaram no seu lugar um outro macaco que nada sabia dos banhos de água fria. Ele comportou-se como qualquer macaco. Foi subir para cima da mesa para comer as bananas. Mas, antes que o fizesse, os outros quatro aplicaram-lhe a sova prescrita. Sem nada entender e passada a dor da surra, voltou a querer comer a banana e subiu outra vez. Nova sova. Depois da quarta sova, ele concluiu: nesta jaula, quando um macaco sobe para cima da mesa apanha. Adoptou então a sabedoria cristalizada pelos políticos humanos que diz: se não podes derrotá-los, junta-te a eles.
Os psicólogos retiraram então um outro macaco e substituíram-no por outro. A mesma coisa aconteceu. Os três macacos originais mais o último macaco, que nada sabia da origem e função da surra, aplicaram-lhe a sova de praxe. Este último macaco também aprendeu que, naquela jaula, quem subia para cima da mesa apanhava.
E assim continuaram os psicólogos a substituir os macacos originais por macacos novos, até que na jaula só ficaram macacos que nada sabiam sobre o banho de água fria. Mas, apesar disso, eles continuavam a sovar os macacos que tentavam apanhar as bananas.
Isto prova a importância do hábito, da rotina.
Se perguntássemos aos macacos a razão das surras, eles responderiam: é assim porque é assim. Nesta jaula, o macaco que sobe para cima da mesa apanha... Tinham-se esquecido completamente das bananas e nada sabiam sobre os banhos. Só pensavam na mesa proibida.
Vamos "fazer de conta". Imaginemos que as escolas fossem as jaulas e que nós é que estávamos dentro delas... Por favor, não se ofendam, é só um “faz-de-conta” para ajudar o raciocínio.
O nosso desejo original é comer bananas. Mas já nos esquecemos delas. Há, nas escolas, uma infinidade de coisas e procedimentos cristalizados pela rotina. À semelhança dos macacos, aprendemos que é assim que são as escolas. E nem fazemos perguntas sobre o sentido daquelas coisas e dos procedimentos mais adequados para a educação das crianças. Vou dar alguns exemplos.

Primeiro, a arquitectura das escolas. Todas as escolas têm corredores e salas de aula. As salas servem para separar as crianças em grupos, segregando-as umas das outras. Porque é que é assim? Tem de ser assim? Haverá uma outra forma de organizar o espaço, que permita a interacção e cooperação entre crianças de idades diferentes, tal como acontece na vida? A escola não deveria imitar a vida?

Programas. Um programa é uma organização de saberes numa determinada sequência. Quem determinou que esses são os saberes e que eles devem ser aprendidos na ordem prescrita? Que uso fazem as crianças desses saberes na sua vida de cada dia? As crianças escolheriam esses saberes? Os programas servem igualmente para crianças que vivem nas praias do Algarve, nas zonas suburbanas da Amadora, nas aldeias da Serra da Estrela, ou de Trás-os-Montes?
Os programas são dados em unidades de tempo chamadas "aulas". As aulas têm horários definidos. No final de cada uma, toca-se uma campainha. A criança tem de parar de pensar o que estava a pensar e passar a pensar o que o programa diz que deve ser pensado naquela altura. O pensamento obedece às ordens das campainhas? Porque é que é necessário que todas as crianças pensem as mesmas coisas, na mesma hora, no mesmo ritmo? As crianças são todas iguais? O objectivo da escola é fazer com que as crianças sejam todas iguais?

A questão é fazer as perguntas fundamentais, e, para nossa própria sanidade mental, não nos conformarmos com o “status quo”, por que é que assim? Para que serve isso? Poderia ser de outra forma? Temo que, como os macacos, concentrados no cuidado com a mesa, acabemos por nos esquecer das bananas...

"Triste Época! Mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito" (Albert Einstein)

Esta história é bem elucidativa do que se passa na nossa sociedade. Não é só nas escolas que é difícil mudar, hábitos, maneiras de ser e de proceder, estamos inundados de instituições que se gerem por procedimentos cristalizados no tempo. Ainda á bem pouco tempo os livros selados da contabilidade tinham que ser escriturados à mão, e num tempo ainda não muito distante com letra francesa, desenhada… Imagine-se!
Há hábitos de décadas que não é fácil alterar. Nos tribunais, nas repartições de finanças e nos serviços públicos em geral. Esta situação contrasta vivamente com a actividade privada onde a alteração de métodos para melhorar a eficiência á incentivada.
Em Inglaterra, por exemplo, quando o governo de Tony Blair ganhou as eleições à Sra.Margeret Thatcher, instituiu, através do Ministério de Comercio e Industria, um sistema de melhoramento continuo (continuous improvement) que tinha como objectivo incentivar as empresas a descobrirem as melhores práticas para aumentar a eficiência e combater os desperdícios.
Uma grande parte das empresa aderiu à ideia e abriu-se ao exterior e, no seu próprio interesse e no interesse dos seus clientes, aceitaram sugestões e ideias para melhorar procedimentos. A filosofia subjacente era que as poupanças obtidas, fossem repartidas pelos promotores das ideias. O sistema, teve enorme sucesso.
Neste campo não estamos tão perto de Inglaterra como era desejável, mas temos que reconhecer que existe a consciência de que já não fazem sentido determinado numero de procedimentos. A sociedade mudou radicalmente de há vinte anos a esta parte (e mudará muito mais rapidamente daqui para a frente), e é fundamental que se alterem práticas que hoje já não fazem nenhum sentido.

Há ainda um longo caminho a percorrer no relacionamento entre a associação de pais da nossa escola e os professores e órgãos dirigentes. É fundamental que todos nós centremos o nosso interesse no que é essencial na escola que é A CRIANÇA. É obrigação de nós todos proporcionar-lhes as ferramentas com que irão enfrentar a vida, quer essas ferramentas sejam conhecimentos, quer sejam experiências, quer sejam formas de relacionamento e de socialização.
Por outro lado a nossa associação esteve inactiva durante uma série de anos e isto é um factor muito negativo, que irá levar algum tempo até que se reconheça a importância da nossa participação. Como referi, a associação de pais tem que fazer coisas, tem que estar activa, tem que promover projectos, tem que, ao fim e ao cabo “fazer falta”.

04- Estão satisfeitos com as vossas escolas? Porquê?

Para ser sincero, não. Aliás penso que se a resposta fosse afirmativa, seria um mau sintoma porque daria a impressão de que tudo estava já feito e que nada haveria a acrescentar e melhorar.
Estamos numa encruzilhada (a palavra mais forte seria trapalhada), onde as instituições que eram intocáveis deixaram de ter credibilidade, governos, tribunais, bancos, empresas, famílias, escolas, etc.etc..
A actual crise que começou por ser financeira e descambou (como seria de esperar) numa crise económica, acabou por pôr a nu uma série de questões que ninguém se atrevia a colocar mas que em boa verdade todos nós tínhamos formuladas. Como é possível enriquecer-se rapidamente sem nada produzir? Com é possível fazer dinheiro através da pura especulação? Compro hoje por 5 amanhã vendo por 10. Será que todos ganhavam? Quando rebentou o caso da Dna Branca, olhávamos sorrindo de soslaio, acusando de ingénuos os que tinham caído no esquema. Hoje já ninguém se ri porque não é a “banqueira do povo” que está na ribalta são os Madof, e outros que tais que se aproveitaram na ingenuidade de muitos para enriquecerem em proveito próprio.
São estes exemplos que damos aos nossos filhos. Qual o papel das famílias e qual o papel das escolas na tarefa de recentrar a atenção das crianças nos valores fundamentais da nossa civilização?
Tarefa ciclópica, pois claro! Contudo imprescindível porque decisiva na educação formação dos que amanhã irão ter em suas mãos o nosso destino. E isto não é coisa pouca, são eles que irão decidir se nos hão-de pagar ou não as reformas a que temos direito. Meus amigos se não for inculcado o valor solidariedade nas nossas escolas e nas nossas casas, temo que algum governante futuro decrete que os velhos são um fardo e não merecem ser protegidos.
É crua a afirmação mas são estes valores, entre muitos outros, que devem ser ensinados. O trabalho, a superação, o respeito pelos demais, a tolerância para discutir novas ideias.
Se estivéssemos contentes com a escola, estas preocupações não fariam sentido.


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